sexta-feira, 28 de abril de 2017

Sexta Feira Bagaceira: Culture Beat


O Culture Beat é um projeto alemão de Eurodance (ainda na ativa), fundado em 1989 pelo produtor Torsten Fenslau (falecido num acidente em 1993). Pouco antes de sua morte, Fenslau ainda viu o grupo estourar a banca com o single "Mr. Vain", lançado no começo daquele ano e número um em 13 países. "Mr. Vain" conta com os ótimos vocais de Tania Evans, que substituiu a primeira vocalista do projeto, Lana Earl - que canta no terceiro single do Culture Beat, "I Like You", ainda de 1990. De sucesso moderado nas charts, mas bem executada nas pistas do mundo inteiro, "I Like You" é um clássico exemplo da house europeia que dominaria o mundo até a metade dos anos 90: rap nervoso (a cargo do americano Jay Supreme), típico refrão-gancho feminino e instrumental não muito original, mas eficiente. Aqui ainda há samples precisos, uma linha de baixo potente e pianos galopantes no melhor estilo ítalo. Memorável.

"I Like You": coreografia ruim.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Nostalgia Futurista


Voyager, quinto álbum do Vitalic (o produtor francês Pascal Arbez-Nicolas), saiu no começo do ano e parece já ter envelhecido uns dez anos. Na verdade, metade desse tempo se passou desde o último dele, o fraco Rave Age, mas a sensação de déjà-vu é constante durante os 42 minutos do novo disco.

Não que isso seja ruim, afinal não tem nada no techno atual que não soe como reciclagem. O problema - mais uma vez num disco do Vitalic - é que Voyager oscila demais. O techno espacial (evidenciado pela arte de capa, título, temática das canções e timbres usados) perpetrado por Arbez tem ótimos momentos de inspiração eletrônica e nostálgica, como em "Waiting For The Stars", com arpejos pesados de baixo sintético (que impulsionam uma grande canção pop dançante) ou "Levitation", que é mais Chemical Brothers que o próprio Chemical Brothers recente, embora a colisão de sintetizadores tenha me lembrado de cara "It's More Fun To Compute", do Kraftwerk (1981). A tristonha "Hans Is Driving" (com um vocoder lânguido e vocais "reais" de Miss Kittin) caberia em qualquer álbum do AIR e com um bom fone de ouvido é possível ainda perceber sutilezas como um lindo coral celestial no segundo plano. "Use It Or Lose It" também não faz feio, mais enérgica e dançável que a média do disco. Ainda da metade apreciável de Voyager, "Don't Leave Me Now" é um belo encerramento; uma delicada e emotiva faixa (coproduzida por Roger Hodgson, ex-Supertramp), que parece ter sido gravada na solidão-conforto de uma estação espacial. Os maus momentos passam por "Lightspeed" e seu riff de sintetizador grosseiramente baseado em "Funkytown" do Lipps, Inc. (1979), pela viagem prog sem sal de "Nozomi", a pretensão barroca de "Eternity" e a trôpega "Sweet Cigarette".

No fim das contas, ignorando algumas faixas (ou tentando ter mais paciência do que eu tive), Voyager é uma boa audição. Seu lado mais experimental soa árido e pedante, não acho que seja a praia de Vitalic. Já quando ele usa o que parece ser uma bela coleção de sintetizadores vintage para compor canções de inegável apelo pop (como "Waiting For The Stars" e "Don't Leave Me Now"), o resultado é altamente positivo. No mínimo, dá pra dizer que Voyager é bem melhor que seu antecessor e, ao menos, não caiu na vala comum EDM.


 


"Waiting For The Stars": nostalgia futurista.

domingo, 16 de abril de 2017

Barão da House


House Music é uma arte destinada ao single.

Sim? Frankie Knuckles, Marshall Jefferson, Larry Heard, Ten City: singles espetaculares, nenhum álbum inesquecível.

Não? Leftfield (Leftism), Daft Punk (Homework), Basement Jaxx (Remedy), Black Box (Dreamland)... há vários exemplos de gente que dedicou o mesmo cuidado ao álbum que dispensou aos 12 polegadas.

Empate técnico.


DJ e produtor de Chicago (espécie de Jardim do Éden da coisa toda), Lee Foss já tem no portfólio uma bela coleção de singles autorais - que ele lança desde 2010. E chega a 2017 disposto a aumentar a porcentagem dos Discos de House Que Valem a Pena Ouvir.

Seu recém lançado álbum de estreia Alchemy (Emerald City Music, 2017) é, numa palavra, primoroso. Parta do princípio que um bom álbum - independente do gênero - é aquele que funciona, também, em casa. No caso de um disco de dance music, que a aplicação não se restrinja somente às pistas de dança. Ponto para Foss. Alchemy rola inteirinho sem ter nada que te faça procurar o botão skip. São 12 canções absolutamente bem feitas, house em essência, mas perfeitamente digeríveis para qualquer apreciador de boa música pop. Mesmo nas faixas que parecem exclusivamente direcionadas para execução entre luzes ofuscantes e volume médio de 110 decibéis (uma boate, por exemplo), há elementos na música que amenizam a experiência para o ouvinte médio. "Deep Congo", a faixa de abertura, é um caso assim. Com uma linha de baixo sintética de fazer tremer a cristaleira e vocais picotados no refrão, há várias camadas de teclados trabalhando no segundo plano que fazem com que as amostras mais ásperas de som acabem harmonizando perfeitamente em conjunto. O mesmo princípio aplica-se às instrumentais "Transit Of Venus" (absolutamente criativa em suas variações de baixo), "Laserdance" (com suas baterias eletrônicas paleolíticas) e ao encerramento "Lake Shore Drive" (camadas sobre camadas de teclados engrenados num estilo mais próximo à Detroit do que Chicago).

O mesmo apuro dedicado em cada hi-hat, em cada timbre de teclado de Alchemy, também é conferido aos vocais e na escolha de quem canta no álbum. De uma nova safra apadrinhada por Foss viceja a impressionante Alex Mills, que participa brilhantemente de "Haunted"; o sempre presente Ali Love (que já gravou várias faixas com Foss, incluindo o projeto Hot Natured, com o outro chefão do selo Hot Creations, Jamie Jones); a doce Camille Safiya (que participa em "The Gift" e na faixa título); Anjulie (na refrescante pop song "Green Light") e Josh Taylor na funky house "Play With Fire".  

Alchemy (como tudo que Lee Foss já pôs as mãos) dispensa formalmente truques e clichês encontráveis facilmente na cena dance mainstream atual - ambiciosa, cheia de vaidade e arrogante como nunca. É um álbum sólido de House Music (merece as maiúsculas) que não despreza o pop, sem pasteurização. Positivamente detalhista, altamente dançável e de uma audição prazerosa do início ao fim.

Enquanto o sofrível Chainsmokers vai pra primeiro na Billboard, Lee Foss, em seu debut, provavelmente cravou o que deve ser o disco de house do ano. Não perca.


"Haunted": só uma das muitas faixas excelentes de Alchemy.

sábado, 15 de abril de 2017

Buscando Ser Stelar


Sei não, mas fiquei com a impressão de que o austríaco Marcus Füreder quer ultrapassar as janelas das casas europeias. Mesmo não frequentando os primeiros lugares das paradas, o pioneirismo de seu projeto Parov Stelar no campo do electro swing / future jazz sempre foi muito bem assimilado pelo público do Velho Mundo, mas no resto do planeta, Füreder provavelmente pode ir à padaria sem ser incomodado. Até então com uma produção cuidadosa e sempre com ótimos vocalistas convidados, seu novo single "State Of The Union" é de um panfletarismo perigoso e musicalmente ordinário, com naipe de metais qualquer nota e estrutura dance bem pop - muito próximo às tentativas recentes de nulidades como (argh) Avicii. Luz amarela acesa.

"State Of Union":

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Sexta Feira Bagaceira: Gretchen


Visitando o Wikipedia de Gretchen, me espantei com um dado: ela vendeu mais de 12 milhões de discos. É mais que o Kid Abelha e Lulu Santos, o dobro de Skank e Titãs. Há de considerar a relevância da informação para a, hummm, "cena pop" brasileira. Ainda mais para uma artista que nem vivia exclusivamente da música. Além de cantora, a carteira de trabalho de Maria Odete Brito de Miranda Marques pode tranquilamente estampar as profissões de atriz, dançarina, youtuber e personalidade da televisão - regulamentadas ou não (Rainha do Bumbum é título, não conta para aposentadoria).

Fato é que Gretchen iniciou, mesmo, como cantora, no grupo vocal feminino As Melindrosas, fazendo versões de cantigas de roda sob bases de disco music. A despeito da ideia insólita, os quatro primeiros álbuns do grupo venderam mais de quatro milhões de cópias, o que chamou a atenção do DJ e produtor argentino radicado no Brasil Mister Sam, que a lançou em carreira solo. O debut da cantora (então com tenros 19 aninhos) foi My Name Is Gretchen (capa acima), de 1978, pop com toques de disco e mambo. No geral é fraquinho, Gretchen mais sussurra do que canta (arrisca uns trinados na tentativa meio glam de "Rock'N Roller"), mas imagino que coisas como "I Love You, Je T'Àime" e "My Name Is Gretchen" devem ter deixado a turma de Ernesto Geisel meio sem saber o que fazer quando ouviu. Canções de gosto duvidoso à parte, "Freak Le Boom Boom" é o grande hit aqui. Levadas de violão e piano irresistíveis, palmas por cima da caixa da bateria, trompete chicano e Gretchen gemendo a letra com trechos em inglês, espanhol e francês. Resultado: o single vendeu mais de cem mil cópias, o álbum My Name Is Gretchen foi parar em 5 milhões e nascia um clássico das pistas (o single saiu em vários países da Europa, inclusive). Fora o que ela deixava a galera da mão direita suando frio cada vez que aparecia na Discoteca do Chacrinha.

"Freak Le Boom Boom":