quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Pintura Sonora


House mezzo caribenha nesse single do produtor de Denver, Avery Henderson (a.k.a. Falcon Punch). Com empréstimo dos vocais de Nina Simone, "Flying High" flutua sossegada sobre paragens ensolaradas, entre guitarrinhas funky e uma vibe baleárica. Prontinha pro próximo volume da série Café Del Mar.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Crônica Da Decepção Anunciada


Quando ouvi no Youtube uma recém postada "Final Day" (que havia estreado dias atrás na BBC), fiquei coçando o queixo, meio desapontado. Pop (no mau sentido) e escorregadia, a faixa não parecia nem de longe algo vindo de um cara que contribuiu de forma decisiva para a música eletrônica com um disco como New Forms. Infelizmente, minha desconfiança justificou-se.

Não sei exatamente o que aconteceu, mas receio que Roni Size cansou de ver gente sem talento lucrando em cima de um som no qual ele investiu tanto (o drum'n'bass, no caso). Aí, ele resolveu fazer um disco (Take Kontrol, saiu dia 25) pensando no Top 40 do paradão inglês. O resultado é desastroso.

No lugar da desconstrução jazzística de seus beats tão originais no final dos 90 (e comecinho dos 2000), agora temos (em todas as faixas!) uma monocórdica bateria heavy metal em que a caixa tem o dobro do volume do bumbo. Tudo errado. Ao invés de divas blueseiras de faixas como "Heroes", MCs pagando de rapper do Prodigy. Aquelas linhas de baixo que desafiavam a execução humana reduziram-se à distorções no talo e saturação de timbres comuns à EDM mais fuleira.

Não entendo como um produtor que não abdicava de noções como criatividade e inventividade grava um álbum que qualquer projetinho xinfrim, tipo Pendulum ou Nero, gravaria.

Se isso funcionar, vai ser bom. Pro bolso dele. Já para os nossos ouvidos...

"Big Bashy": sem vergonha do auto-tune.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Red Nights


Mesmo com um revival 90 ainda titubeante, o traquejado David Morales resolveu dar um rolê pela década em que discotecava (junto com Frankie Knuckles) no lendário clube Red Zone, em Nova Iorque.


Seu EP The Red Zone Project Vol. 1 traz quatro faixas de house pendendo para o techno ("Kaos"), minimalismo ("Vision Quest") e um forte acento afro ("Tribal Funk"). Até aí, nada demais, mas em "Don't Go", o comeback faz todo sentido. Com uma linha de baixo sedutora e sample do riff de sintetizador de "Pump Up The Jam" (Technotronic), a faixa soa incrivelmente 1992.

"Don't Go":

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

À Sombra Do Passado


Com o espetacular Endtroducing..... (1996), DJ Shadow lacrou seu próprio sarcófago. Os três álbuns seguintes não chegaram nem perto do impressionante engavetamento de samples de sua (justamente) incensada estreia. Josh Davis bem que tentou afastar-se de sua fórmula vencedora, mas discos irregulares e poucas faixas dignas de nota nesses quase vinte anos acabaram relegando o ás dos toca-discos à um certo status cult, mesmo sem trabalhos tão relevantes quanto Endtroducing..... 



No começo de Agosto, saiu The Liquid Amber EP, com duas faixas inéditas ("Ghost Town" e "Mob") e um remix do Machinedrum para "Six Days", um single extraído do segundo álbum, The Private Press. Segundo o próprio Shadow, "Ghost Town" "...é um passeio ambicioso através de muitos dos micro-gêneros dentro do guarda-chuva do Future Bass, que me inspirou recentemente". Ela é um tanto experimental e sombria, com baterias assimétricas e uma melodia ao piano contrastando com a metralhadora de beats em que a música se transforma no final. Já "Mob" é um hip-hop instrumental, com uma linha de baixo paleolítica e baterias eletrônicas de bolso. The Liquid Amber EP é familiar aos primeiros singles de Shadow, mas... ainda não foi desta vez.

"Ghost Town":

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Sexta Feira Bagaceira: Kajagoogoo


"Too Shy" foi o único hit digno de nota do Kajagoogoo. Nem sei se foi sucesso no Brasil (em 1983 eu tinha oito anos e música pop não pegava nem Top 20 na minha lista de preferências), mas provavelmente as FMs devem ter vendido o grupo britânico como o novo Duran Duran. Não por acaso. O single foi produzido por Nick Rhodes (tecladista duranie) e Colin Thurston (produtor dos dois primeiros álbuns do grupo preferido da falecida Lady Diana), bateu em primeiro no paradão inglês e não fez feio do outro lado do oceano (#5 na Billboard). O álbum de estreia White Feathers veio em seguida e nem me arrisco a recomendar: é ruim demais. "Too Shy", no entanto, tem seu charme. A linha de baixo é um trabalho competente do baixista Nick Beggs e o refrão, reconheço, é difícil esquecer. A banda tentou mostrar o resultado do seu processo de maturação no disco seguinte, Islands (1984), com enxertos de soul e jazz, mas já não tinha muita gente interessada - ainda mais sem a presença, hããã, "carismática" do vocalista Limahl, que emplacou um hit solo nesse mesmo ano (a baba "NeverEnding Story", produzida por Giorgio Moroder e música tema do filme de mesmo nome).

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Intelligent Electronic Music

Começamos assim: sem essa de IDM, esse rótulo safado. Isso não é dance music. IEM, que tal? Música Eletrônica Inteligente me parece mais adequado. Isso posto, dois lançamentos bacanas, um do veterano Mike Paradinas (a.k.a. µ-Ziq), outro do texano Jeff McIlwain (a.k.a. Lusine).



µ-Ziq aparentemente deixou de lado suas (des)construções rítmicas perpetradas no século passado (como no amalucado Lunatic Harness, de 1997) e aposta agora em timbres nostálgicos e estruturas menos complexas - mas nem por isso, desinteressantes - em seu EP Rediffusion. "Taxi Sadness" tem lá sua quebradinha drum'n'bass, mas os sintetizadores à The Orb massageiam delicadamente os ouvidos. Vozes angelicais aparecem em "Rimmy" (pense naquele esquisitíssimo teclado chamado Orchestron, usado para os coros de "Showroom Dummies", do Kraftwerk), efeitos aquosos colaboram para o clima onírico de "PRG" e Paradinas só patina mesmo com a arrastada "Tambor", que encerra o disco.

"Taxi Sadness":


O Lusine também não nasceu ontem: já se vão bons quinze anos desde seu debut epônimo. O projeto de Jeff McIlwain apareceu ano passado aqui no blog com o bom álbum The Waiting Room e agora McIlwain acaba de soltar o EP Arterial. Dosando a acessibilidade de Waiting Room com um experimentalismo contido e sintetizadores inspiradíssimos, Arterial tem quatro faixas com vida própria, desde a linda melodia instrumental da faixa título até o esquartejamento vocal de "Forks". De quebra, beats de hip-hop e uma sujeirinha contínua de vinil gasto. Maravilha.

Arterial EP, inteirinho pra audição: 

domingo, 3 de agosto de 2014

Na Velocidade Do Som


Prolificidade não é uma das características de Rockwell. Ano passado o produtor britânico soltou o single "Detroit", uma peça fundida com pedaços de drum'n'bass e techno que soou desafiadora para os membros inferiores, pela velocidade assustadora. Agora ele aparece com INeedU / 1_2_3_4, nas palavras de Rockwell, "uma mistura estranha de house, drum'n'bass e disco, em 172 BPM". "INeedU" chega com cheiro de coisa nova numa cena em que a originalidade anda em baixa. Mesmo com o pé no fundo do acelerador, os hi-hats sibilantes e as boas rajadas de teclados são estímulo suficiente pra pista. Já no lado B, "1_2_3_4", a coisa sai um pouco do controle. É como se abrisse a tampa do liquidificador no meio do processo de mistura: voam nacos de techno e jungle pra todos os lados.   

"INeedU": pernas pra que te quero.