domingo, 11 de junho de 2017

Garbage House



Não tenha dúvida que os DJs e produtores suecos Axwell e Sebastian Ingrosso conhecem música. Se o que eles fizeram em suas carreiras solo ou com o infame Swedish House Mafia (junto com Steve Angello) tem mais a ver com dance ordinária ou com uma linha de produção de música de pista, você decide. Eu não gosto. 


Nem sabia que Axwell e Ingrosso continuaram gravando como dupla, depois do fim da máfia sueca da house, em 2013. Descobri essa semana, quando o EP More Than You Know caiu na minha timeline no Facebook. Isso me fez pensar que: 1) preciso dar uma filtrada no feed e 2) qualquer informação é válida, assim posso falar mal sem o remorso do "não ouvi mas não gosto".

Bom, "More Than You Know", a faixa título, engana bem. Durante seis segundos. É o tempo da introdução com uma guitarra escovada que parece preceder uma faixa funky e grooveada. Mentira. O refrão entra rachando, mesmo antes de qualquer estrofe. É o método Dr. Luke de composição de hits: não pode se perder muito tempo até chegar ao refrão. Nenhum tempo. Cinco segundos e olhe lá. Não tive paciência pra contar quantas vezes o refrão é repetido pelo insípido e desconhecido cantor (hahaha) Kristoffer Fogelmark, até porque esse é um dado irrelevante. "More Than You Know" é mais desse lixo EDM que você ouve por aí (casualmente ou não), de produção estrondosa pra funcionar bem nos fones de ouvido ou nos PAs bombados das pistas mais top (argh). Com "Renegade", parece que a coisa vai engrenar num acento de house francesa, de baixo elástico e vocais da dupla Salem Al Fakir e Vincent Pontare (?) maquiados por um filtro para, provavelmente, corrigir alguma deficiência. "How Do You Feel Right Now" e "Dawn" são o suprassumo da dance music eletrônica mais rasteira possível. A primeira com drops calculados, pausas que se limitam a repetir o título da canção e intervalos pra colocar as mãos pro alto. A segunda, uma melodia de synths "pra cima" obviérrima, que lembra vagamente algo que um dia se chamou progressive, mas hoje rotular isso como garbage house cai como uma luva.

No final da audição de More Than You Know, lembrei do álbum We're Only in It for the Money (clássico do Mothers of Invention de Frank Zappa, que completa 50 anos em Março do ano que vem). Claro que a lembrança não tem nada a ver com música e sim com o título. Sem a ironia de Zappa, claro.

"More Than You Know": jatinhos e mãos pro alto.


sexta-feira, 9 de junho de 2017

Sexta Feira Bagaceira: Rod Stewart


David Bowie, o camaleão do pop? E o Rod Stewart, então? Rhythm and blues na sua primeira banda no começo dos 60 (The Dimensions), hard rock no Jeff Beck Group, pop psicodélico no Faces, baladeiro emocional grandiloquente no início dos 70, technopop oitentista (o hit "Young Turks") e até disco music no auge do gênero (é famosa a história do "plágio inconsciente" de Stewart - foi o que ele alegou nos tribunais - quando chupou a melodia de "Taj Mahal" de Jorge Ben pra compor o refrão de seu maior hit de pista, "Da Ya Think I'm Sexy?", de 1978).

Normal pra um artista pop embarcar na onda disco na época, afinal, se o Queen ("Another One Bites The Dust"), Stones ("Miss You"), Blondie ("Heart Of Glass") e Paul McCartney ("Goodnight Tonight") podiam, porque não Rod Stewart?

Polêmicas à parte, nem sei dizer o que é mais espetacular nessa música, se a linha de baixo galopante ou o arranjo de cordas/sintetizadores magistral. Fato é que Stewart com sua voz de lixa sempre foi um craque do pop e cravou um hitaço disco inesquecível.

"Da Ya Think I'm Sexy": canastrão gente boa.

domingo, 4 de junho de 2017

Quando o Techno Era Pop

 

Senta que lá vem clichê: o pop é cíclico. Estava pensando nisso enquanto ouvia Galvany Street (Blaufield Music), novo álbum do Booka Shade. A dupla alemã começou lá no final dos 80 como um projeto synthpop, foi convertendo-se em house e agora, em 2017, achou que tinha a ver lançar um disco que é uma espécie de volta às raízes (mais um chavão ordinário). Não sei se Walter Merziger e Arno Kammermeier encheram o saco do seu tech house límpido e geométrico que gerou belos álbuns como Memento (2004) Movements (2006) ou só quiseram provar que, sim, eles podiam compor canções com estrutura pop de estrofe-refrão-estrofe e trabalhar com mensagens um tanto mais diretas (no caso, letras) quanto os sensacionais ganchos de sintetizador que fizeram a fama das (já) clássicas das pistas "Body Language", "Mandarine Girl" e "In White Rooms". Para isso, convidaram quatro vocalistas (a mim, todos desconhecidos), incluindo Craig Walker (o do meio, na foto acima), que canta em metade do álbum.

O produto final, se não é brilhante, é muito bom de ouvir. E se é assim, acredito que deve-se muito ao fato do Booka Shade ter dois produtores de mão cheia, com excelente gosto para timbres, texturas e batidas e ainda capazes de preencher cada espaço vazio na música com sons que quase passam despercebidos numa audição aleatória, mas são claramente perceptíveis com um bom par de fones de ouvido. São detalhes como a meticulosa programação de bateria de "Broken Skin", os mil teclados e o tratamento vocal de "Numb the Pain" ou os bleeps e micro ruídos que formam a base de "Peak". Afastando-se do 4x4 e formado em sua maioria por canções downtempo, Galvany Street traz poucos momentos propícios à pista de dança e, mesmo assim, com BPM médio: a suingada "Numb the Pain", os ecos de New Order de "Babylon" e o ótimo bassline amparado pelo refrão grudento de "Loneliest Boy". A baixa dançabilidade do álbum talvez não surpreenda os fãs (que já viram o Booka Shade experimentar com ritmos mais lentos em Cinematic Shades [The Slow Songs], de 2008), mas a  abordagem sugere uma aproximação do techno com o pop, mesmo, como tudo começou para a dupla.

"Babylon": das poucas faixas que induzem ao movimento de Galvany Street.



sábado, 3 de junho de 2017

Strange World

 O que Erasure e Alphaville tem em comum? O synthpop, o sucesso nos anos 80 (em menor escala, no caso do Alphaville), a carreira cambaleante nos 90 e o franco declínio nos 2000. Ambos acabaram de lançar novos álbuns e o resultado...


Strange Attractor (Polydor) é o sétimo disco do Alphaville, que tem como único membro original o alemão Marian Gold (nome artístico para o quase impronunciável Hartwig Schierbaum). A média até que é baixa, já que Marian lança um álbum a cada sete anos, desde o bom Forever Young (1984). Negócio é que depois do empolgante debut, o Alphaville não teve mais nenhum trabalho digno de nota. Alguns singles interessantes (como o relativamente recente "I Die For You Today", de 2010) e só. Strange Attractor pega leve com baladas a um passo da grandiloquência, sintetizadores macios, levadas de violão e os bons vocais de Gold, que aos 63 anos se mostra mais contido do que quando alcançava as notas altíssimas de hits como "Big In Japan" e "Sounds Like a Melody". Se você quiser arriscar uma ouvida em Strange Attractor, ignore o fraco single "Heartbreak City" e tente a razoável "House Of Ghosts", a boa "Around The Universe" e a fluída "Mafia Island". São as que se salvam.

"Heartbreak City": decepcionante.




World Be Gone (Mute) é o décimo sétimo (!) álbum do Erasure, numa carreira iniciada em 1986. Aliás, os discos do Erasure dos anos 80 são todos muito bons, com menção especial à The Innocents (1988), talvez o melhor da dupla formada por Andy Bell (vocais) e Vince Clarke (sintetizadores). O duo ainda adentrou respeitosamente os 90 com o bom Chorus (1992) e o incrível EP de covers ABBA-esque (também de 1992) e, depois disso, ladeira abaixo. Recentemente, o Erasure procurou trabalhar com novos produtores pra tentar um upgrade no som, como Frankmusik (em Tomorrow's World, de 2011) e Richard X (The Violet Flame, de 2014), mas os resultados foram tão pífios que os próprios Clarke e Bell resolveram girar os botões da mesa de som do estúdio nas gravações de World Be Gone (com a ajuda do engenheiro de som Matty Green). Bom, infelizmente não adiantou. O novo álbum é arrastado, modorrento, preguiçoso. Nada do technopop esfuziante de outros tempos, o que temos aqui são baladas tristonhas carregadas pelos teclados mais sem graça que Vince Clarke já tocou na vida. World Be Gone chegou em sexto na parada inglesa - o que não deixa de ser surpreendente. Se bem que ficar no número seis da tabela britânica hoje em dia significa vender o que? Umas cinco mil cópias? Não importa. Sinceridade que não tem nem o que indicar pra ouvir desse disco - que é, provavelmente, o pior da carreira do Erasure.
"Love You To The Sky": declínio.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Sexta Feira Bagaceira: Roxette


Vestidos para o sucesso, mas por puro acaso. O Roxette já era bem popular em sua terra natal, a Suécia, na segunda metade da década de 80, mas ainda não havia atingido as paradas internacionais. Calhou de um estudante americano levar uma cópia do recém lançado segundo álbum da banda, Look Sharp! (1988) para os Estados Unidos e entregar para uma rádio de Minneapolis, que passou a tocar o single "The Look". A faixa se espalhou rapidamente para outras estações, popularizando o Roxette na América e forçando a EMI a lançar o álbum por lá no ano seguinte, o que fez a dupla formada por Marie Fredriksson (vocais) e Per Gessle (vocais e guitarras) emplacar quatro singles pelo resto do mundo ("The Look", "Dressed for Success", "Listen to Your Heart" e "Dangerous") - dois deles no lugar mais alto do paradão da Billboard.

Com um apuro técnico invejável e um compositor pop brilhante (Per Gessle), o Roxette cravou várias canções em paradas e segmentos diferentes (pop, adulto-contemporâneo, dance). O crossover "Dressed for Success", por exemplo, invadiu rádios e pistas na virada 80/90 - tanto que ganhou um 12 polegadas com remixes em 1990. É pop perfeito feito por um duo que é herdeiro direto do ABBA, de refrãos eternos, hits inesquecíveis e um talento impressionante para direcionar sua música para o single - apesar de Look Sharp! ser bem apreciável (uma das minhas preferidas do disco, "Paint", nem foi single). O grupo continua excursionando e lançou seu álbum mais recente (Good Karma) ano passado.

"Dressed for Success": pop perfeito.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Nova Aparição de Fatima


Fatima Yamaha é um projeto de house e electro do holandês Bas Bron que não é lá muito prolífico em relação a sua produção. São onze anos de distância que separam o primeiro (2004) do segundo single (2015), até que ele resolvesse gravar um álbum. Agora em 2017, Bron retorna com Araya EP (Dekmantel), com um som que preserva as características de sua pequena e curiosa discografia, até aqui.

Araya tem a faixa título estendendo-se por seis minutos de tech house sci-fi instrumental, com arpejos sustentando os belos timbres de sintetizadores old school e condução rítmica 4x4 (usando o velho truque das palmas na caixa), que deixa tudo com cara de space disco à la Cerrone/Patrick Cowley (e funciona).

"Piayes Beach Bar and Grill" tem um ritmo mais engrenado - culpa do baixo sintético funkeado, mas monocórdico - e uma cama macia de teclados esvoaçantes em segundo plano. O pecado aqui é o timbre meio estridente do sintetizador que vai solando durante a faixa, que quase põe tudo a perder. Já a desnecessária "Romantic Bureaucracy" tem cara de lado B, mesmo: sons de piano bem reais na base, mas um teclado irritante no tema principal.



A julgar pelas três faixas de Araya EP, até que Bas Bron não está tão errado em lançar seus discos sob o pseudônimo Fatima Yamaha de forma homeopática. Sorvidos aos poucos, os EPs descem redondinho. Já um álbum inteiro (Imaginary Lines, de 2015) deixa um indelével sabor retrô na garganta que não significa exatamente que a experiência foi boa.



segunda-feira, 29 de maio de 2017

Fool's Gold



Aos fãs mais empolgados do músico e produtor britânico William Bevan (a.k.a. Burial), um aviso: nem tudo que ele toca vira ouro. Fato é que ficamos mal acostumados com a excelência de seu dubstep sombrio e indecifrável, a saber, perpetrado num álbum muito bom (Burial, de 2006) e em outro, à centímetros da perfeição (Untrue, 2007). De 2007 pra cá, só EPs e alguns singles gravados com gente como Four Tet, Thom Yorke e Massive Attack, com resultados não tão impactantes quanto as canções contidas em Untrue, mas bastante interessantes.



 O EP Subtemple (Hyperdub) saiu agora em Maio, em quatro formatos de áudio digital (AIFF,  ALAC, FLAC e MP3) e num vinil 10 polegadas. As duas faixas, "Subtemple" e "Beachfires", são longas (7:23 e 9:54 minutos, respectivamente) e não diferem muito uma da outra. No geral, é um experimento de música ambiental de tons escurecidos por synths e ruídos desordenados de estética glitch, com um sample vocal cadavérico em "Subtemple" e sintetizadores celestiais/ameaçadores em "Beachfires". Não vai faltar gente pra dizer que é genial, pós-qualquer coisa ou o surrado clichê "música que desafia rótulos". Eu achei chato e pretensioso pra cacete. São 18 minutos de tensão, sons perturbadores e suspense que, na versão em LP, devem fazer os estalos e cliques do vinil soarem mais interessantes que a música, propriamente dita. Algo me diz que a soberba já anda frequentando os trabalhos recentes de Burial. Só isso justifica provocar o ouvinte desse jeito.
 

"Subtemple"/"Beahfires": teste de paciência.

domingo, 28 de maio de 2017

Mesh Up


Você, jovem (ou nem tanto), fã ardoroso de technopop e que anda decepcionado com suas bandas preferidas (Erasure, Pet Shop Boys, Depeche Mode), saiba que o Mesh continua na ativa entregando trabalhos deliciosos. Álbuns redondinhos (Looking Skyward, o mais recente, é do ano passado) e singles idem. 

Mês passado a dupla de Bristol soltou o EP Runway (Dependent Records), com a faixa título extraída de Looking Skyward (aqui acrescida de um remix), mais uma inédita e um cover do Yazoo. "Runway" junta com maestria alguns elementos que os fãs do gênero apreciam: uso inteligente da eletrônica, acessibilidade, intensidade. É uma grande canção synthpop, com um belo gancho de sintetizador e um refrão que merece ser conservado na memória. A versão Club Class Mix não é nenhuma radicalização em cima do original; só ganhou mais extensão, arpejos de baixo, efeitos e um bumbo mais amigável às pistas de dança. As duas faixas extra nem de longe lembram algo que se pareça com um lado B: "Too Little Too Late" é um tanto enegrecida pelos sintetizadores, mas a construção das estrofes até chegar ao refrão de tom épico é digna de nota. "Tuesday" é um ótimo cover do Yazoo, transformando o minimalismo gelado (e espetacular) de Clarke/Moyet em hit de pista gótica. 

Esqueça os medalhões preguiçosos. Adote o Mesh.


sexta-feira, 26 de maio de 2017

Sexta Feira Bagaceira: Sigue Sigue Sputnik


A autoproclamada "quinta geração do rock'n'roll" foi uma piada inventada pelo ex-baixista do Generation X, Tony James. Punks de boutique, visual espalhafatoso, alguns hits e, estranhamente, uma imensa popularidade no Brasil - tanto que o segundo álbum, Dress for Excess, de 1988, teve o nosso Arnolpho Lima Filho (Liminha) como um dos produtores - fizeram do Sigue Sigue Sputnik uma curiosidade passageira, que enjoou tão rápido quanto pegou.

"Love Missile F1-11" foi o primeiro single do álbum de estreia do grupo, Flaunt It. Lançada em Março de 1986, chegou ao terceiro lugar no paradão inglês e teve parte da popularidade (foi o maior hit dos Sputniks) baseada em sua inclusão na trilha do blockbuster Curtindo a Vida Adoidado.

Movida a baterias eletrônicas frenéticas, "Love Missile F1-11" engaveta uma batelada de samples (a voz de Malcolm McDowell extraída de um trecho de Laranja Mecânica, por exemplo), chupa o baixo de "Girl U Want" do Devo, exagera nos efeitos sobre a voz de Martin Degville e tem um climinha futurista/apocalíptico providenciado pelo produtor da faixa, Giorgio Moroder.

Não sei se Moroder se orgulha disso, mas que foi divertido, foi.

"Love Missile F1-11": techno-punk era isso.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Club Classics: "The Luxury Gap", do Heaven 17


Nascido a partir de uma dissidência do Human League (os tecladistas Martyn Ware e Ian Craig Marsh) com o acréscimo do vocalista Glenn Gregory, o Heaven 17 fez relativo sucesso na primeira metade dos 80. Seu debut Penthouse and Pavement (1981) é considerado por muita gente como o melhor trabalho da banda - pra mim, eles atingiram a melhor forma, mesmo, com esse álbum aí, The Luxury Gap, de 1983. Imediatamente mais pop e acessível do que o predecessor, tem ao menos quatro singles de sucesso extraídos dele: "Crushed by the Wheels of Industry", "Let Me Go", "Come Live With Me" e o hitaço "Temptation" (que foi ressuscitada em 1996 ao entrar na trilha do filme Trainspotting). Synthpop em essência, mas com boas doses de funk e soul embutidas no som, The Luxury Gap sequer foi lançado no Brasil (o primeiro disco do grupo que saiu por aqui foi o seguinte, o fraco How Men Are, mostrando o quanto nossa indústria do disco canarinho estava ligada ao que acontecia lá fora). Bom, essa cópia aí da foto acabou de chegar agora a tarde. Bora curtir.

"Temptation": synthpop luxuoso.

domingo, 21 de maio de 2017

ReMoby



A bem da verdade, Richard Melville Hall (a.k.a. Moby) tem uma discografia bem irregular, no que tange aos seus álbuns. São poucos discos que mereçam uma audição completa com satisfação garantida. Com o sampler como artista principal, Play (1999) com certeza é o seu melhor trabalho (não por acaso, foi também o que o levou ao estrelato e o que mais vendeu). 18 (2002) está quase lá, com boas canções e diversos convidados que garantem uma diversidade rara de se encontrar num álbum de eletrônica. Seu debut autointitulado de 1992 trazia a força do techno ainda em expansão e a energia das raves para a sala de estar, com o frescor da novidade superando o próprio conteúdo, em si. Depois de 18, Moby tem entregado álbuns cada vez mais sonolentos e pouco inspirados, com um ou outro single digno de nota.

Não sei se essa inconstância ou alguma outra coisa pôs Moby a apertar o pause e repensar sua carreira, mas desde o ano passado começaram a pipocar singles e EPs de remixes de suas faixas mais emblemáticas, por diversos artistas e selos diferentes. Ouvi dois destes EPs recentes, com resultados totalmente desiguais.

Black Lacquer (2017, Fool's Gold Records)


Quatro remixes num EP desastroso. Ashley Jones (Treasure Fingers) pasteurizou "Go" com pianinhos manjados, bleeps sem graça e ainda deixou a base de strings original (chupada de "Laura Palmer's Theme", de Angelo Badalamenti) em segundo plano, bem discretinha. Praticamente matou a música. "Why Does My Heart Feel So Bad?" (Madeaux Remix) virou um monstro EDM desprovido de emoção, High Klassified só editou o sample vocal de "Natural Blues" pra encaixar na sua house monótona (que não chega a três minutos) e Nick Catchdubs (DJ, produtor e cofundador do selo que lançou este EP) não poderia ter feito programação de bateria pior (algo próximo ao hip-hop) pra usar na sua visão de "Porcelain".




The Drum & Bass Remixes (2017, Shogun Audio)

Aqui a coisa muda de figura. The Drum & Bass Remixes foi encomendado para o selo britânico de drum'n'bass Shogun Audio para ser usado como parte da campanha promocional do livro de memórias de Moby (Porcelain, que saiu no ano passado) e o que temos são radicais e inventivas recriações por parte do cast da gravadora. A flutuante "Natural Blues" (Icicle Remix) é um bom aquecimento pro liquid funk atmosférico do Technimatic em "Why Does My Heart Feel So Bad?", continua acelerando com a nervosa "Go" (Fourward Remix) e relaxa de novo entre ambient e liquid em "Porcelain" (Pola & Bryson Remix). É assim que se faz.


sexta-feira, 19 de maio de 2017

Sexta Feira Bagaceira: OFF


Pra mim o alemão Sven Väth tem sido o melhor DJ do mundo há alguns anos. Ele não tem o site mais fodão, o maior número de seguidores no Facebook ou tampouco interage com o público jogando bolo ou fazendo acrobacias no palco/cabine: o que conta são seus sets de house e techno acessíveis, incrível e obviamente dançantes, técnica e profundo conhecimento musical. E com um agravante digno de nota: ele não precisa mais do que dois toca-discos e um mixer. Só isso. Sem softwares, sem truques, sem bruxaria eletrônica. É o vinil e ele, só. 

Entre 1980 e 1981, depois de passar um verão em Ibiza, Väth (então com 16 anos), deslumbrado com a cena club da ilha, voltou para a Alemanha e começou a discotecar no pub dos pais. Depois, já residente de um clube em Frankfurt, conhece Michael Münzing e Luca Anziloti, monta o projeto OFF e produz o primeiro single em 1985, “Bad News". O sucesso só viria mesmo com "Electrica Salsa", do ano seguinte. A faixa pegou na Europa inteira (no Brasil, também, entrando na trilha da novela Bebê a Bordo). O synthpop mezzo New Beat claramente influenciado por grupos de EBM/industrial alemães como o DAF, era hipnótico e engrenado, com vocais declamados perversamente pelo próprio Väth. O sucesso do single abriu caminho para a gravação do álbum, lançado em 1988 (por aqui, saiu com a mesma capa do single "Electrica Salsa" - foto acima - com Väth segurando um cigarrinho maroto). Organisation For Fun influenciou fortemente a cena dance alemã de então e, além de ter colocado Sven Väth no caminho do estrelato como DJ, revelou dois produtores de mão cheia: Luca Anzilotti assumiu o pseudônimo John Virgo Garrett III, Michael Münzing virou Benito Benites e ambos estouraram com o Snap!, algum tempo depois.

O álbum é interessantíssimo, vale conhecer. E "Electrica Salsa" é reconhecível, ainda hoje, em qualquer pista, já no primeiro "Baba Baba" que Sven Väth solta.

"Electrica Salsa (Baba Baba)": esquisitinha e inesquecível.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Ciclo Completo


Nos anos 80, cada novo single do New Order era um acontecimento. Eles privilegiavam tanto a arte do doze polegadas que só depois de dois discos, em 1985 (Low-Life), resolveram os incluir nos álbuns. E junto com cada single, vinham remixes, versões dub e extended... uma festa para os DJs - que se consolidou definitivamente em 1987 com o lançamento da coletânea obrigatória Substance. A relação da banda de Manchester com as danceterias era tão estreita que alguns LPs tinham bem definidos o lado A (mais roqueiro) e o B (mais dançante): Power, Corruption & Lies (1983), Brotherhood (1986) Technique (1989), são bons exemplos.

Tudo nos conformes, então, com o lançamento mês passado do EP Music Complete: Remix (Mute), que traz versões alternativas para algumas canções (cinco) do ótimo álbum Music Complete, de 2015, que, diga-se, é o melhor do New Order dos últimos 20 anos (mais precisamente, desde Republic, de 1993).

Uma das coisas mais legais do EP é que eu nunca vi mais gordo ninguém que submeteu as músicas do New Order ao bisturi. Gente como o DJ e produtor japonês Fumitoshi Ishino (a.k.a. Takkyu Ishino) que transformou a já originalmente suingada "Tutti Frutti" numa viagem Acid House com uma profusão de arpejos de sintetizador e basslines de TB-303 alucinantes.


"The Game" e "Academic" foram retrabalhadas pelo produtor britânico Mark Reeder: a primeira passou do rock eletrônico pro downtempo (Spielt Mit Version), num novo arranjo que valorizou ainda mais as belas cordas da original; a segunda (uma das melhores de Music Complete) ganhou uma batida 4x4 forte, recortes das guitarras originais e uma linha de baixo propulsora. "People on the High Line" (pelas mãos do duo alemão Purple Disco Machine) virou a trilha perfeita para o hedonismo de Ibiza, repetindo infinitamente o trecho da letra "It's all gonna be alright" e adicionando pianos House e um bassline gordo e melódico de Disco Music.


"Restless" (com remix do francês Sébastien Devaud a.k.a. Agoria) fecha o EP com uma ótima versão instrumental tech-house para a ligeiramente melancólica faixa de abertura de Music Complete.

Não sei qual o critério usado para a escolha das faixas que foram remixadas em Music Complete: Remix EP, porque o álbum, em si, é de uma homogeneidade que só deve ter tornado mais difícil a decisão de pinçar só cinco canções e entregá-las para as reconstruções desse pessoal que trabalhou admiravelmente bem, porque o EP é sensacional. E bem que poderia abrir a possibilidade de um Remix EP II, que se for nesse nível aí, vai ser muito bem vindo.


domingo, 14 de maio de 2017

The Train Is Going Away


Achei que as ideias prosaicas do Depeche Mode sobre política tinham ficado no distante 1983, em Construction Time Again, terceiro - e excelente, a despeito das letras - álbum da banda. Pois em 2017 a banda achou que tinha a ver voltar ao tema e lançou "Where's The Revolution", o primeiro single do novo disco Spirit. Ambos levam o carimbo "medíocre", sem pena.

Não sei se se confirma a ideia que muita gente tem de que a maioria dos fãs (exceto os xiitas) vem esperando por uma nova "Enjoy The Silence" ou um novo Violator há tempos, mas a teoria me parece cada vez mais aceitável a medida que o tempo avança para o Depeche Mode, com uma discografia totalmente irregular desde o clássico de 1990. E para um grupo que sempre vendeu muito mais singles do que álbuns, Where's The Revolution foi decepcionante. Entrou em quadragésimo na parada alternativa da Billboard e nem figurou nas charts britânicas. Ah sim, o mercado mudou, público mudou, eles estão mais do que estabelecidos como a mais bem sucedida banda eletrônica da história do pop, etc... Mas os admiradores (como eu) estão sempre querendo mais, ou só querem, na verdade, moldar a banda de acordo com o próprio gosto saudosista. Me incluo nos dois grupos. O que a mim é certo, é que "Where's The Revolution" soou totalmente panfletária e óbvia. E não são os remixes das versões CD single / Digital Download que a salvaram - nem com as mãos habilidosas do produtor Ewan Pearson, nem com o remix entre solene e soporífero do Algiers, o techno cansativo do francês Terence Fixmer ou muito menos a frieza das batidas descompassadas do Autolux.

O remix de Ewan Pearson é a única coisa aqui feita com a intenção de funcionar na pista de dança, um território que sempre foi muito familiar ao Depeche. A mim, não excita mexer o corpo com essa trilha, num single que é um erro - do começo ao fim.

"Where's the Revolution" (Ewan Pearson Remix): ninguém se salva.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Sexta Feira Bagaceira: Frank Frank


Letras de sentido ambíguo ou teor satírico-pornográfico não eram propriamente uma novidade no pop brasileiro do começo dos 90. Do forró de Zenilton (cujo sucesso "O Pão da Minha Prima" foi regravado até pelo Raimundos) ao rock humorístico do Dr. Silvana & Cia. ("Serão Extra"), explorar essa verve cômica/libidinosa garantiu muitos hits (e boas risadas), até a chegada dos Mamonas Assassinas, que escancararam as portas da chinelagem alto-astral de vez.

José Francisco de Aquino (o rapper paulista Frank Frank) veio reforçar esse time, ao menos com uma música que foi hit dos bailes da época, "A Mulherada Tá Querendo Poder". A cacofonia gerada pela palavra "poder", não precisa nem explicar: "A mulherada tá querendo é poder e os homens tão querendo é..." Apesar do aparente machismo explícito no título/refrão, a letra é quase um manifesto ingênuo sobre as fêmeas oportunistas e safadinhas ("Existem minas que só querem tirar um barato / e com homens imbecis fazer gato e sapato / fazem o cara pagar tudo, deixam ele apaixonado / e ainda dizem que ele é o seu primeiro namorado / existem sete mil mulheres para cada um / mas dez mil homens para elas não valem nenhum").

O restante do álbum de estreia de Frank Frank, Raça, Axé e Poder (Zimbabwe Records, 1991) é bem abaixo da média do então embrionário rap brasileiro (Thaíde & DJ Hum e Racionais MCs já tinham discos bem consistentes nessa época), com letras pouquíssimo inspiradas e rimas fracas, mas contou com a produção do DJ Cuca, que montou bases irresistivelmente dançantes para Frank soltar seu flow esquisito. De qualquer forma, a letra de "A Mulherada Tá Querendo Poder" era berrada em uníssono quando tocava, por homens e mulheres. Com a exacerbada patrulha moral e de um politicamente correto que às vezes dá no saco, a faixa provavelmente seria condenada pelos tribunais das redes sociais hoje em dia. Por outro lado, Frank Frank parece um pregador da Pentecostal perto do que o funk carioca é capaz de produzir atualmente.

"A Mulherada Tá Querendo Poder": cacofonia.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Discoteca Gaudéria


Guilherme Silveira (a.k.a. DJ Feijão) deu um tempo com o Paradizzle pra lançar Summer Body, o primeiro álbum do seu projeto Lola Disco, pela ianque Sunrise Collective. O disco é um intrincado engavetamento de samples colados sob bases de french house ("I Want Your Love", a impronunciável "夏の準備は", "All The Time" e "G.T.H.Y.L.") e andamentos mais funky ("King Against The World", "Love Your Grooves"), entre amostras que vão de ABC à Rick Astley e alto poder de dançabilidade em 11 faixas originais e dois remixes. Com uma auto definição de tags que inclui disco, house, future funk, nudisco e vaporwave, é o próprio Guilherme que define qual é a da Lola, nesse papo que tive com ele:

Com tantas tags demarcando o território da tua música, onde exatamente está o Lola Disco?


Lola Disco foi um projeto que começou completamente despretensioso. Na verdade "ela" tinha uma outra função, foi um perfil fake que criei no Soundcloud para repostar as minhas outras coisas, do Paradizzle e também os sets e beats que fazia como DJ Feijão
.

Entretanto, sempre fui muito afim de fazer uns beats no estilo Nu Disco/French Touch, queria deixar um pouco de trabalhar com a música Rap e experimentar coisas mais groove porque, na minha opinião, o Rap deixou de samplear o Funk e a Disco e caiu num tipo de música que não me agrada, algo muito dark, deprê.

E com uma música basicamente apoiada em samples, já rolou de artista/gravadora pedir pra retirar algum?

Respondendo mais diretamente a pergunta anterior, Lola Disco se encontra dentro do Future Funk, um estilo nascido a partir do Vaporwave - "Future Funk is a music genre that emerged from the Vaporwave genre in the summer of 2012. It is characterized with the heavy use of samples, primarily of 70's and 80's funk and disco." Nunca rolou nada de pedir pra retirar música por causa de sample.
Basicamente por usarmos em sua maioria samples de artistas desconhecidos. Caras que, pra eles, é até uma homenagem. E na verdade, só se fica sabendo do uso de algum sample quando a coisa fica realmente grande, e o artista em questão fica sabendo. Mas no meu caso nunca rolou nada.



Na virada dos 80 pros 90, pessoal do rap e da house começou a temer os processos por causa do uso de samples não autorizados. Tu achas que isso influenciou de alguma forma o processo criativo? No Summer Body tem ABC e Rick Astley, por exemplo. Tu não ficas receoso de tomar uma advertência?

Nao fico não, porque a label pela qual lancei o álbum não tem abrangência para tanto e inclusive o método de venda é o Name You Price, ou seja, o álbum está disponível para baixar de graça e paga quem quiser. Outra coisa, estamos falando de um "gênero musical" onde o uso forte de samples é obrigatório, portanto o grupo que consome esse tipo de música já sabe disso e procura por isso.

Como é o teu processo de composição e montagem das faixas?

Basicamente se escolhe primeiramente um sample que pode se tornar um "main" sample a medida em que se escolhe outros samples para serem secundários. Muito frequente no caso de se usar a técnica do "micro sampling", em que se mistura samples de 4, 5, 6 ou mais músicas diferentes em uma mesma track, o que tenho feito em minhas últimas produções. Nas últimas também tenho adicionado outros elementos tocados por mim mesmo, como baixo e teclados. E nesse caminho quero seguir.


E no Summer Body tu cuidaste de tudo? Produção, mixagem masterização, etc...?

Sim, tudo. Tirando as faixas em que houve participações de outros caras, daí eles também participaram desse processo. VHS Logos, grande produtor aqui do RS e um dos precursores do Vaporwave, disse certa vez que o próprio artista que deve cuidar de sua própria mixagem e masterização, pois só ele sabe o resultado onde quer chegar. Entretanto isso requer muito estudo, algo em que estou tentando aprender, mas cada vez o cara melhora mais um pouco, também não há uma regra em termos de música.


E sobre hardware/software?

Eu uso o FL Studio, também conhecido como Fruity Loops, grande amigo de 9 entre 10 beatmakers de Rap, e foi assim que comecei. Ano passado comprei uma MPD, mas não consegui fazer ela funcionar como deveria, então ainda não a estou utilizando. Quando gravo baixo e outros instrumentos, uso alguns dos plugins que vem junto com o FL Studio. MPD é tipo uma MPC mais simples, que tu consegue sincronizar com o FL Studio ou outra DAW que você use.


Tu gravas os samples nela?


Isso, você consegue colocar, digamos, em cada Pad (botão) um recorte de sample que você recortou ou outro timbre de qualquer outra coisa, daí você consegue com as mãos ou "dedos" tocar no ritmo e dinâmica que você quer a sequencia que você pensou, junto com um Drum ou não.



Em "I Want Your Love", a introdução tem um ruído de estática numa frequência altíssima. Foi intencional?

Sim.
Isso faz parte do estilo, colocar gravações antigas, de rádio, TV e até mesmo ruídos da época inicial da Internet, faz parte da coisa retrô da história...
Não é contraditório um gênero chamado Future Funk buscar samples de disco e funk do passado?

Não acho contraditório porque justamente o nome já fala tudo, usar samples de coisas antigas para tentar parecer moderno ou do "futuro", que tem tudo a ver com a estética 80's do que eles pensavam ser o futuro, coisa que o Daft Punk faz desde os 90 com maestria. É que tipo, nos anos 70 e 80 a música tinha uma visão de futuro, eles se voltavam para o futuro. De uma maneira piegas e ingênua,
mas eles tinham essa visão. Depois veio o grunge e caras como Kurt Cobain só queriam se matar e serem deprês, hehehe... Não havia futuro para eles.

 Samples são uma fonte esgotável?

Existe sim uma quantidade quase infinita de samples, porém tem gente que já sampleia coisa que já foi sampleada... Entretanto acredito que, principalmente após o advento da música Rap e da Eletrônica, onde o DJ virou protagonista, o conceito de música foi mudado e hoje vivemos em outra época onde também a questão de ser "músico" pode ser revista.


Há planos para mídia física do Summer Body?



O pessoal quer muito que eu lance o Summer Body em cassete. Mas isso não depende apenas de mim, teria que falar com o pessoal da Sunrise. Mas pelo que já vi, com muito erros na entrega do material pelo pessoal que faz, talvez ainda não valha a pena. Tipo gravação errada, capa errada, etc... Já ouvi falar. E vá saber se vai vender mesmo.
 
Pra encerrar: tu tens algum tipo de planejamento sobre o projeto (vender determinado número de discos, excursionar, live PA, etc...), ou é um dia depois do outro, observando as reações?



Summer Body foi o fechamento de um ciclo, a partir de agora me voltarei para um outro foco.
Trabalharei cada vez melhor as tracks e um EP apenas de música brasileira está a caminho.
Com todo feedback positivo que ganhei no exterior com o Lola Disco, não seria justo que não tentasse ganhar o mercado nacional.

Como Lola Disco?

Ou outro nome, se achar que der na telha eu faço...

Summer Body, inteiro no Bandcamp:


Soundcloud:

sábado, 6 de maio de 2017

Moda Passageira



O quinto álbum dos californianos do The Anix é um erro geográfico: Ephemeral (2017, Cleopatra Records) passaria fácil por uma banda germano-escandinava de futurepop (mais uma subdivisão do technopop, que parece ser um filho bastardo do trance com o synthpop).


Fato é que, segundo o próprio grupo relata, o novo disco é uma guinada definitiva rumo ao eletrônico, já que o cruzamento com o rock era o foco até agora. Devo confessar que é a primeira vez que ouço algo do trio, então confio totalmente no release. Direto ao ponto: o grande problema de Ephemeral é a falta de uma (ou mais de uma) canção que faça realmente a diferença. Um single forte, vendável, popular, que impulsione o álbum para algo além dos ouvidos do povo de preto que frequenta pequenos clubes enfumaçados da noite de Los Angeles - se é que esses clubes existem, porque a imagem que tenho ouvindo isso é uma referência-clichê cinematográfica de inferninho futurista e decadente, onde a qualquer momento um Schwarzenegger metade ciborgue vai invadir o local com uma escopeta em punho e destruir garrafa por garrafa do bar em meia dúzia de tiros.

O cinema, aliás, é influência forte para o Anix. Eles dizem tentar se afastar de referências mainstream e veem filmes de temática dark como orientação para o som e para a imagem da banda. Não por acaso, o grupo gravou um single em 2011 com os noruegueses do Apoptygma Berzerk, que traz um cover de "Burn" (The Cure), tema do filme O Corvo, de 1994.

Ephemeral, no geral, é uma audição agradável. Tem algumas boas ideias incrustadas nas músicas, como os cellos sintéticos na dramática abertura "Again"; a guitarra limpa de "Remnants of Us" e a batida cambaleante de "Vanished". Gol contra é a onipresença de arpejos de sintetizador, que quase cansa o ouvido em uma hora de duração do disco.



Entre as doze faixas, o Anix ainda cometeu um cover asséptico de "Celestica" (Crystal Castles) que não fez feio:


O vídeo do single "Mask" é um bom resumo de Ephemeral: synthpop enegrecido, mas com potencial perceptível.



Já que o Depeche Mode desistiu do gênero faz algum tempo e o Erasure não acerta um disco há anos, recomendo a audição para os fãs ardorosos de technopop. Pode surpreender e, principalmente, vislumbrar um futuro que pode ser promissor pro The Anix - a despeito do título do álbum.

Ephemeral, inteiro no Bandcamp:

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Sexta Feira Bagaceira: Shakin' Stevens


Conheci o galês Shakin' Stevens (de batismo, Michael Barratt) no começo dos 80, com a esquisitona "Give Me Your Heart Tonight", incluída na trilha da novela Pão Pão, Beijo Beijo (1983). A canção é um bolerão pop dramático com um memorável (para o bem e para o mal) teclado com timbre de acordeom.

Apesar de ter começado no final dos 60, Stevens só foi deslanchar nos 80, mesmo, e cravou nada menos que 33 singles no Top 40 inglês em sua carreira (e foi solenemente ignorado nos Estados Unidos). Com um visual totalmente Elvis e uma pegada rock'n'roll (no sentido Neil Sedaka do termo), minha preferida deste, hããã, herói tardio do rockabilly britânico, é a cafoninha "You Drive Me Crazy": rebolativa, grudenta e divertida pacas.

"You Drive Me Crazy": pseudo neo Elvis.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Amnésia Techno


Tive que dar uma fuçada no Youtube pra ver se lembrava de alguma coisa de Undercover, o bem avaliado álbum do produtor canadense radicado na Alemanha Marc Houle, de 2012, já que só tinha a imagem da capa forte na memória (um Abraham Lincoln de riso ameaçador e olhos diabólicos). Em vão. Ouvi algumas músicas, mas nada que estivesse minimamente registrado em algum canto esquecido do meu cérebro.


Seu recente lançamento, Sinister Mind (saiu em Março pela Items & Things, selo germânico que tem Houle como um dos fundadores), vai pelo mesmo caminho. O que não deixa de ser curioso, porque o minimal techno das nove faixas prima, obviamente, pela repetição de riffs, arpejos e loops, o que teoricamente deveria fazer com que a quase exaustiva duração do processo (as faixas tem, em média, seis minutos) deixasse gravada ao menos trechos da música contida aqui. Ouvi Sinister Mind várias vezes e o que ficou está mais associado à minha memória de curto prazo do que qualquer outra coisa, prontinho pra ser esquecido. Não me culpe. O responsável é o próprio Houle e a volatilidade de uma música que vai permanecer nos fones de ouvido dos fãs mais ardorosos do techno autor por algum tempo, é bem provável que seja executada em clubes underground e depois, periga sumir sem deixar vestígios - como aconteceu comigo e Undercover. Se reconheço, por exemplo, “Energy Flash” (Joey Beltram), "LFO" (LFO) e "Nude Photo" (Rythim Is Rythim) já nos primeiros acordes, porque o mesmo não acontece com qualquer coisa de Sinister Mind? Longe de mim querer insinuar que Houle não tem talento, mas se o objetivo de agrupar algumas canções e lançar isso em forma de um álbum não é que o conjunto mereça ser, no mínimo, conservado na lembrança, então o que justifica lançar discos? As tentativas são válidas, OK. O gancho arabesco de sintetizador da abertura "Don't Think of Me" e as oscilações da frase de teclado da irresistivelmente sacolejante "Loafers" são boas investidas, mas são oásis encontrados eventualmente num álbum em que a média é enfadonha: "Failure" justifica o título de uma canção soporífera, "Dark Tom" parece ter teclas apertadas aleatoriamente em meio a espancamentos metálicos de bateria e "Conbular" arrasta-se serpenteando efeitos que voam de um canal para o outro das caixas de som. Uma das poucas que destoam do geral é o encerramento "Paligama" - techno que erige uma ponte imaginária entre Detroit e Berlim, engrenada e hipnótica. O problema é que em quase um hora, pouco mais do que vocais/vocoders assustadores e timbres angustiantes de sintetizador chamam a atenção. Muito pouco.

Sobre Sinister Mind, Houle disse que depois de mais de dez anos fazendo música, sentiu que era um bom momento para parar e avaliar sua jornada musical e que não havia planejado uma trilogia, mas percebeu que tinha tanta coisa para dizer, que limitar a apenas um LP não iria contar a história toda. O primeiro álbum da suposta série, como o título indica, refletiu as tendências mais escuras do seu som, conforme ele mesmo disse. A representação sonora desse propósito deixou a desejar no primeiro volume, mas estou curioso para ouvir os próximos.


"Loafers": oásis.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Sexta Feira Bagaceira: Culture Beat


O Culture Beat é um projeto alemão de Eurodance (ainda na ativa), fundado em 1989 pelo produtor Torsten Fenslau (falecido num acidente em 1993). Pouco antes de sua morte, Fenslau ainda viu o grupo estourar a banca com o single "Mr. Vain", lançado no começo daquele ano e número um em 13 países. "Mr. Vain" conta com os ótimos vocais de Tania Evans, que substituiu a primeira vocalista do projeto, Lana Earl - que canta no terceiro single do Culture Beat, "I Like You", ainda de 1990. De sucesso moderado nas charts, mas bem executada nas pistas do mundo inteiro, "I Like You" é um clássico exemplo da house europeia que dominaria o mundo até a metade dos anos 90: rap nervoso (a cargo do americano Jay Supreme), típico refrão-gancho feminino e instrumental não muito original, mas eficiente. Aqui ainda há samples precisos, uma linha de baixo potente e pianos galopantes no melhor estilo ítalo. Memorável.

"I Like You": coreografia ruim.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Nostalgia Futurista


Voyager, quinto álbum do Vitalic (o produtor francês Pascal Arbez-Nicolas), saiu no começo do ano e parece já ter envelhecido uns dez anos. Na verdade, metade desse tempo se passou desde o último dele, o fraco Rave Age, mas a sensação de déjà-vu é constante durante os 42 minutos do novo disco.

Não que isso seja ruim, afinal não tem nada no techno atual que não soe como reciclagem. O problema - mais uma vez num disco do Vitalic - é que Voyager oscila demais. O techno espacial (evidenciado pela arte de capa, título, temática das canções e timbres usados) perpetrado por Arbez tem ótimos momentos de inspiração eletrônica e nostálgica, como em "Waiting For The Stars", com arpejos pesados de baixo sintético (que impulsionam uma grande canção pop dançante) ou "Levitation", que é mais Chemical Brothers que o próprio Chemical Brothers recente, embora a colisão de sintetizadores tenha me lembrado de cara "It's More Fun To Compute", do Kraftwerk (1981). A tristonha "Hans Is Driving" (com um vocoder lânguido e vocais "reais" de Miss Kittin) caberia em qualquer álbum do AIR e com um bom fone de ouvido é possível ainda perceber sutilezas como um lindo coral celestial no segundo plano. "Use It Or Lose It" também não faz feio, mais enérgica e dançável que a média do disco. Ainda da metade apreciável de Voyager, "Don't Leave Me Now" é um belo encerramento; uma delicada e emotiva faixa (coproduzida por Roger Hodgson, ex-Supertramp), que parece ter sido gravada na solidão-conforto de uma estação espacial. Os maus momentos passam por "Lightspeed" e seu riff de sintetizador grosseiramente baseado em "Funkytown" do Lipps, Inc. (1979), pela viagem prog sem sal de "Nozomi", a pretensão barroca de "Eternity" e a trôpega "Sweet Cigarette".

No fim das contas, ignorando algumas faixas (ou tentando ter mais paciência do que eu tive), Voyager é uma boa audição. Seu lado mais experimental soa árido e pedante, não acho que seja a praia de Vitalic. Já quando ele usa o que parece ser uma bela coleção de sintetizadores vintage para compor canções de inegável apelo pop (como "Waiting For The Stars" e "Don't Leave Me Now"), o resultado é altamente positivo. No mínimo, dá pra dizer que Voyager é bem melhor que seu antecessor e, ao menos, não caiu na vala comum EDM.


 


"Waiting For The Stars": nostalgia futurista.